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Educação

A Educação e os Valores no Século XXI: Educação para a Vida - Uma Abordagem Holística

Capítulo 1 - A Crise na Educação

Considerando-se que educação é uma "aprendizagem que leva à integração social ou ao ajustamento social" (Maia, 1998, p. 7) percebemos claramente que tal objetivo não vem sendo alcançado, pois, "o que atualmente chamamos educação é um processo consistente em acumular informações e conhecimentos, tirados dos livros, e isso qualquer um que saiba ler pode conseguir." (Krishnamurti, 1989, p. 15).

Vejamos alguns outros comentários sobre a Educação atual:

"A educação que se oferece à população, em particular à mais pobre, não tem condição de ser emancipatória, seja porque é ainda quantitativamente exígua, seja porque é sobretudo qualitativamente precária. O que menos os alunos têm feito na escola é aprender." (Demo, 1999, p. 64).

"A educação atual está toda interessada na eficiência exterior, desprezando inteiramente ou pervertendo, com deliberação, a natureza intrínseca do homem; só cuida de desenvolver uma parte dele, deixando que o resto se arraste como possa." (Krishnamurti, 1989, p. 44).

Ora, todos nós sabemos que para viver, verdadeiramente, integrado na sociedade não basta ter o cérebro entulhado de informações e conhecimentos; não basta ser especialista neste ou naquele assunto; não basta ter títulos, diplomas e medalhas; não adianta querer ser o melhor, pois, o melhor em alguma coisa nunca será o melhor em tudo e, naquilo em que ele se julga o melhor, sempre surgirá alguém ainda melhor do que ele. Contudo, nosso sistema educacional, influenciado pelas culturas de países que se dizem desenvolvidos e com o aval da sociedade trocou deliberadamente o termo Integração pelo termo Competição. Os resultados foram desastrosos e podem ser vistos nas filas de emprego, no desespero do vestibular, na obscenidade das músicas que fazem sucesso e nas cadeias superlotadas.

Assim, por ter esquecido do seu objetivo primordial, as falhas em nosso sistema educacional acabaram levando milhares de pessoas ao desemprego e à marginalidade. Nosso sistema educacional não consegue preparar nossos jovens sequer para o mercado de trabalho quanto mais para a vida. A grande maioria termina o 2º grau completamente despreparada para o mercado de trabalho.

Recebem durante o período escolar uma quantidade gigantesca de informações, mas, não aprendem Técnicas de Estudo e Memorização a fim de mantê-las na memória e nem desenvolvem o raciocínio o suficiente para manipulá-las de modo adequado.

Aprendem idiomas, mas, não tem assunto para falar e quando tem não falam porque disseram para eles que "Em boca fechada não entra mosca" assim sendo, eles preferem nem se arriscar e quando se arriscam é no máximo para falar de Samba e Futebol.

Fazem esportes para se manter em forma, mas, não são orientados o suficiente para se manterem afastados do álcool, do cigarro, das drogas e das brigas de gang.

Enfrentam anos de dificuldade em Matemática e Física, porque não aprenderam tabuada, não desenvolveram o raciocínio lógico, a capacidade de análise, dedução, síntese e comparação. Resumem a Física a frase de que "Tudo é Relativo" a qual é uma das preferidas dos que não sabem comparar nada com nada e muito menos tirar alguma conclusão.

Aprendem várias termos de Biologia, mas, não aprendem a respeitar à vida em todos os seus aspectos, a não abortar, a respeitar as leis de trânsito, a respeitar as diferenças, a não poluir e a tratar a todos com Compreensão e Respeito.

A escola atual preocupa-se muito com a quantidade de informações que tem que ser transmitida ao aluno. Enfatiza a informação em detrimento da formação. Enfatiza a memorização em detrimento da compreensão. Enfatiza o aspecto racional do ser humano e esquece do aspecto emocional.

E por ter fracassado na sua missão de preparar os indivíduos para a Sociedade, a Escola acabou transferindo a sua responsabilidade social para as faculdades. Criando novas necessidades e novas ansiedades naqueles que a frequentam. Hoje, o aluno acha que o importante é aprender o que cai no Vestibular quando na realidade o importante é tudo aquilo que o ajuda a ser mais humano e feliz.

No Brasil, como a oferta de cursos em Universidades Públicas ainda é abaixo do necessário, proliferam as faculdades de qualidade questionável que utilizam como principal chamariz a tática do "Sem Vestibular" e os cursos pré-vestibulares em que o aluno estuda de 2ª à sábado com testes simulados aos domingos. Sem dúvida nenhuma, para a maioria dos estudantes, o período do pré-vestibular é um dos piores em termos de qualidade de vida. Neste período, a grande maioria apenas assiste aulas e lê apostilas.

Em nosso sistema educacional, quase todo voltado para os interesses do mercado, quase não há espaço para o pensar crítico e criativo e, menos ainda, para o desenvolvimento de habilidades sociais que serão tão necessárias na vida cotidiana tais como: reconhecer as próprias emoções; ser tolerante às frustrações da vida; saber controlar a própria ira; ser capaz de adotar a perspectiva do outro; saber ouvir; saber solucionar conflitos e negociar desacordos; ser mais atencioso; saber partilhar e cooperar. (Goleman, 1995).

No corre-corre da vida moderna, para muitos educadores e até para muitos pais, falar de desenvolvimento de habilidades sociais soará como uma terrível perda de tempo. A este respeito vejamos o comentário de um filósofo do nosso tempo:

"Ricos ou pobres, a maioria dos pais está engolfada nas suas preocupações e atribulações pessoais. A deterioração social e moral de hoje não os preocupa seriamente, e seu único desejo é que os filhos se aparelhem para vencer na vida. Sentem-se ansiosos a respeito do futuro dos filhos e desejosos de que sejam educados para ocupar posições seguras ou fazer bons casamentos." (Krishnamurti, 1989, p. 101).

Ou seja, de certo modo o que é oferecido aos nossos filhos através do nosso sistema educacional está coerente com as aspirações da maioria dos pais que oferecem seus filhos para serem moldados de acordo com os interesses de manutenção do sistema político, social e econômico vigente em que predominam a competição e a desigualdade social. Segundo Demo:

"Mudanças provêm menos de um pobre que tem fome (o qual acaba facilmente se contentando com qualquer sorte de assistencialismo), do que de um pobre que sabe pensar." (Demo, 1999, p. 15).

Limitamos educação à instrução esquecendo que esta última é apenas uma parte da primeira. O informar o cérebro é importante, mas, não tão importante quanto o formar o coração. Sem dúvida nenhuma, no mundo atual precisamos de pessoas inteligentes, mas, que sejam também virtuosas, pois, grande parte da desigualdade social que enfrentamos hoje foi provocada e é mantida por pessoas que passaram vários anos de suas vidas em colégios e, em sua maioria, até faculdades, mas, que ainda não aprenderam a respeitar os direitos dos outros.

O engenheiro que coloca areia de praia no material com que construirá um prédio (edifício Barra Palace I no Rio de Janeiro) enfraquecendo a estrutura do mesmo e pondo em risco a vida de centenas de pessoas, a professora que oferece uma aula de péssima qualidade alegando que "ganha pouco para se estressar", o comerciante que só emite o cupom fiscal se você pedir, o advogado que aceita defender um traficante de drogas responsável por inúmeros homicídios alegando que ele é "uma vítima da sociedade". Todos agem com consciência de causa. Sabem o que estão fazendo. Receberam da sociedade um bom grau de instrução, mas, ainda carecem de valores mais elevados que nos permitam dizer que vivem na sociedade, mas, não estão verdadeiramente ajustados à mesma. Estão instruídos, mas, não verdadeiramente educados. Podem ser até cultos, mas, não podemos dizer que são íntegros.

- Mas será que foi sempre assim? Será que sempre o sistema educacional priorizou o lado racional do ser humano?

- Felizmente, podemos afirmar que não!

Se fizermos, junto com com Nelly Alleotti Maia, uma viagem à Grécia do séc. XVI a XII a.C. (Maia, 2000 a, p. 17) encontraremos a Educação Homérica baseadas nas virtudes dos seus modelos-heróis dando ênfase especial a Aquiles e Ulisses, ou seja, o preparo físico e a astúcia. Resumindo: Físico + Intelecto com ênfase nas virtudes.

Encontraremos no séc. VI a.C. o modelo Educacional de Atenas (p. 18) que compreendia um período sob os cuidados da mãe e das amas, outro numa escola de educação física, outro numa Escola de Educação Intelectual juntamente com a Educação Moral oferecida pelos mais velhos. Resumindo: Aprendizado Emocional + Educação Física + Educação Intelectual + Educação Moral.

Ainda na Grécia, viajando até o Séc. V e IV a.C. encontraremos Sócrates com sua "visão ético-intelectual da educação (o homem sábio é necessariamente virtuoso)" (p.20) e Platão que considerava a "Educação como um caminho para o Bem supremo" (p. 20).

Assim sendo, podemos afirmar que ao longo da História da Educação algo foi ficando de lado e este algo, temos a ousadia de afirmar: foi a Ética.

Hoje, o conceito de sabedoria não está mais vinculado à ética. Consideramos sábio, aquele que sabe muito, independente dele ser ou não virtuoso. E, como nossos sistemas educacionais valorizam muito a erudição acabam esquecendo que ela não é o mais importante, pois, "o homem ignorante não é o sem instrução, mas aquele que não conhece a si mesmo." (Krishnamurti, 1989, p. 15). Complementando o que foi dito, diria Montaigne: "Quantos homens tenho visto embrutecidos por uma temerária avidez de ciência!.." (Gide, 1965, p. 35). E continuaria Rosseau: "Não nos enganamos nunca pelo que não sabemos mas pelo que cremos saber." (Rolland, 1965, p. 205).

Assim sendo, lembremos sempre que educar é mais do que instruir; mais do que informar; mais do que preparar para o vestibular. Educar é formar seres humanos para a vida. É preparar os alunos para conviverem em sociedade, ou seja, para viverem em harmonia com outros seres humanos sendo úteis, criativos, compreensivos e fraternos.

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