Kunlaboro
Temas que constroem um Mundo Melhor!
Desde 25/03/2007 Estatísticas1002346 visitas.

Esperanto

Línguas Internacionais e Direitos Humanos Internacionais

Parte 5 - Hegemonia linguística internacional

A hegemonia linguística do inglês manifesta-se de diversas maneiras. Algumas delas refletem uma força econômica. A difusão do inglês depende menos de força militar (embora a "pacificação" na Bósnia o fortaleça e diversifique) do que de pressões comerciais, não menos as de corporações multinacionais e as de organizações mundiais e regionais, como a UE.

Obviamente, hierarquias linguísticas em nível internacional não se relacionam diretamente com forças nacionais demográficas ou econômicas. O alemão tem o maior número de falantes nativos que qualquer grupo linguístico na UE, o maior mercado interno e a mais forte economia e tem algum uso internacional, mas há poucos indícios de que ele possa competir com o inglês.

O inglês, além disso, beneficia-se do aprendizado de línguas estrangeiras que confirma a hierarquia linguística internacional. Para poder competir no mercado mundial, estados cujas línguas são interlínguas rivais França, Alemanha e Espanha investem muito no aprendizado do inglês em seus sistemas de educação, ainda que o inglês seja visto como uma ameaça aos valores culturais e linguísticos locais.18

A colaboração científica internacional também está cada vez mais dominada pelo inglês. Áreas periféricas de pesquisa estão vulneráveis a empreendimentos cooperativos arriscados apoiados pelo imperialismo científico e linguístico:19 há relações de desigualdade no discurso acadêmico, que o status do inglês consolida, e há uma hierarquia de paradigmas de pesquisa que frequentemente é legitimada e aceita internamente sem reflexão.

A língua de mais amplo uso beneficia-se das imagens dos anúncios de corporações multinacionais e de sua associação com o sucesso e o hedonismo. Estes símbolos são reforçados por uma ideologia que glorifica a língua dominante e estigmatiza outras, sendo esta hierarquia racionalizada e internalizada como normal e natural, e não como a expressão de valores e interesses hegemônicos.

A difusão do inglês é claramente visível em políticas linguísticas pós-colonialistas, que ignoram a ecologia linguística local. Investigações acadêmicas ocidentais sobre a sociologia da linguagem frequentemente refletem uma relação desigual, como mostra a resenha de um livro de um norte-americano sobre política linguística: Eis um exemplo típico de colaboração da Índia e dos Ocidentais: superficial e depreciativa... Quando ignoramos os estudos em línguas regionais hindus sobre as questões linguísticas da Índia, deixamos de ter insights essenciais. A língua inglesa proporciona-nos apenas uma dimensão, um ponto de vista e uma janela (Kachru 1996, p. 138, 140).

Mundialmente, estas tendências e muitas outras que são partes integrantes da macdonaldização levaram a uma disposição, quer nas elites quer nos excluídos, a desejar proficiência em inglês, pela razão óbvia de ser ele visto como uma mina de oportunidades. O apelo do inglês não deve eclipsar o fato de que na África como um todo 90% da população falam apenas línguas africanas. Igualmente, na Índia, de 3% a 5% da população são falantes do inglês. Se os cidadãos de países de todo o globo devem contribuir para a solução de problemas locais, se devem utilizar o meio local para propósitos culturais, econômicos e políticos localmente apropriados, isso deve exigir o uso de línguas locais. Uma política linguística deve reconciliar estas dimensões da ecologia linguística com as pressões da globalização e da supra-nacionalização, que estão promovendo o avanço do inglês. Uma política linguística deve ser explícita e deve incluir condições iguais para todos os povos e todas as línguas.

É possível ampliar as leis de direitos humanos internacionais, a fim de controlar a invasão das línguas internacionais hegemônicas.

Robert Phillipson - Traduzido por Reinaldo Ferreira
Fonte: UEA - Universala Esperanto-Asocio

Notas

18) Para detalhes sobre as mudanças no aprendizado de línguas estrangeiras nos países da UE durante os últimos cinquenta anos e uma análise das consequências para a escolha de uma língua na comunicação interpessoal, ver Labie e Quell 1997.

19) Há, em revistas húngaras de ciências sociais, debates acalorados sobre as relações desiguais entre pesquisadores norte-americanos e seus "parceiros" húngaros. Ver o número especial de Replika "Colonialismo ou parceirismo? Leste Europeu e ciências sociais ocidentais", 1996. Meus agradecimentos a Miklós Kontra, por ter me chamado a atenção para a questão.

20) Um exemplo recente: um funcionário do alto escalão do British Council considera a atual predominância do inglês em domínios chaves da globalização tão compreensível quanto o fato de a água fluir para baixo e o sol nascer no Oriente, e se se aceita esta realidade social, é legítimo e inevitável que os falantes nativos do inglês se empenhem em tirar deste fato vantagens nacionais... (Seaton 1997, p. 381).

|

http://kunlaboro.pro.br/esperanto/linguas-internacionais-e-direitos-humanos-internacionais/05