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Esperanto

Línguas Internacionais e Direitos Humanos Internacionais

Parte 1 - Línguas Internacionais

A língua foi sempre a companheira de um império, e sempre permanecerá sua parceira. (Nebrija 1492, citado em Illich 1981, p. 34)

O senso comum entende o termo "língua internacional" como a língua que pessoas de diversas origens ou nações utilizam entre si. Neste sentido, há muitas línguas internacionais utilizadas em todos os continentes, do português e hindu ao latim e árabe clássico, além das linguae franche (interlínguas) e pidgins, usados em territórios menos extensos.

Utiliza-se o termo "língua internacional" também para as línguas artificiais ou planejadas, como o Esperanto, línguas especificamente criadas para facilitar as relações e a compreensão internacionais, por vezes denominadas línguas auxiliares internacionais. Os usuários de tais línguas não recebem apoio de nenhuma nação ou estado, em nítido contraste com a situação de línguas difundidas mundialmente, como o inglês, o francês e o espanhol.

A dominação linguística origina-se da conquista, da subjugação militar e política e da exploração econômica. O papel linguístico na expansão imperialista foi o elemento central da europeização do mundo. A política linguística fundamental foi expressa em um documento pioneiro de planejamento linguístico, apresentado à corte espanhola em 1492 (ver, acima, citação em epígrafe). Àquela época, as principais línguas europeias eram faladas por apenas alguns milhões de pessoas e não eram utilizadas internacionalmente. A posição atual do inglês, do francês, do espanhol e do português mostra com quanto sucesso e crueldade foi aplicado o princípio de imposição linguística.

As potências colonizadoras raramente estavam prontas a reconhecer que as línguas e as culturas além das próprias tinham por si só valores e direitos. Os linguistas seguiam nos rastros de Nebrija, legitimando hierarquias linguísticas colonialistas (Calvet 1974; Crowley 1991). Hegemonias linguísticas internacionais alimentam-se de crenças e atitudes face a hierarquias linguísticas e imbricam-se com a designação de mais recursos à língua dominante.

Um engenhoso projeto do período entre-guerras de se criar uma versão reduzida do inglês como "língua auxiliar internacional", o "BASIC English" (BASIC = British American Scientific International Commercial, Britânico Americano Científico Internacional Comercial), foi difundido na esperança de que as línguas menores fossem eliminadas: O mundo precisa é de aproximadamente mais mil línguas mortas e mais uma viva (Ogden 1934, citado em Bailey 1991, p. 210). Neste contexto, a "compreensão internacional" foi considerada unilateral; devia-se abandonar as outras línguas e adotar a dominante, a inglesa, tornada mais acessível pela simplificação.

O imperialismo linguístico implica invariavelmente superioridade da língua dominante, quer no mundo colonial quer no pós-colonial (Mühlhäusler 1996; Phillipson 1992). Os britânicos e norte-americanos criaram uma ampla infra-estrutura educacional para difundir mundialmente o inglês.1

As opiniões sobre a superioridade do inglês e sua adequação como a língua internacional por excelência são velhas. Uma investigação detalhada das imagens a respeito do inglês ao longo da história conclui que as ideias linguísticas nascidas no auge da época colonialista, em que a Grã-Bretanha e os Estados Unidos foram os protagonistas, não mudaram quando o colonialismo econômico substituiu a dominação política direta sobre países do terceiro mundo. Acredita-se ainda que o inglês seja a língua mundial inevitável; as razões do relevante papel do inglês nos assuntos mundiais são as mesmas que as elaboradas pela primeira vez no século dezenove (Bailey 1991, p. 121)2.

Um exemplo recente de triunfalismo chauvinista é fornecido por uma campanha de primeira página de um tablóide londrino, de novembro de 1991, época em que o compromisso do governo britânico com a União Europeia era morno e a influencia britânica sobre a integração europeia era mínima: Se a Europa tiver futuro, ela precisará de mais que uma moeda comum, de mais que uma política exterior comum e um direito comum. Ela deverá ter uma língua comum. Esta língua só pode ser a inglesa. (Daily Mail, 29 de novembro de 1991)

Os estados que resistem à difusão do inglês e reivindicam os mesmos direitos para suas línguas são rotulados de "chauvinistas"; eles sofrem do "arcaico orgulho nacional". A crença fundamental parece ser esta: se o inglês conseguiu impor-se como a língua dominante em estados como a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, os mesmos processos podem ser aplicados em escala continental europeia e mundial. Se o monolinguismo pode triunfar em uma nação (assim se pensa), por que também não internacionalmente?

Robert Phillipson - Traduzido por Reinaldo Ferreira
Fonte: UEA - Universala Esperanto-Asocio

Notas

  1. Documento político chave, The diffusion of English culture outside England.

    A problem of post-war reconstruction

    (A difusão da cultura inglesa fora da Inglaterra. Um problema de reconstrução pós-guerra) (Routh 1941), foi escrito por um conselheiro do British Council (Conselho Britânico), uma organização fundada nos anos 1930 para difundir o inglês e se opor à difusão das línguas de governos fascistas. Foi um esquema para a criação da profissão mundial de professor de inglês, que se formou no princípio dos anos 1950 e que, a partir de então, cresce muito.

    Os norte-americanos aplicaram muito dinheiro nos sistemas de educação dos países do "terceiro mundo" e na profissão de professor de inglês como segunda língua... a despesa de grandes somas de fundos governamentais e privados no período de 1959-1970, talvez as maiores somas jamais gastas na difusão de uma língua (Troike, diretor do Centro de Linguística Aplicada, Washington, DC, 1977).
  2. Estas ideias referem-se à sua forma (amálgama de várias línguas, sobretudo europeias) e a seu papel como o recurso de comunicação do cristianismo, da literatura, do bem-estar, da tecnologia, da ciência, do progresso etc.

    A discordância do tema imperial é rara até mesmo hoje (Bailey 1991, p. 116). Há uma longa e ainda vigorosa tradição de se pretender dar provas da superioridade anglófona em todos os campos da atividade humana. Muitas pessoas justificaram as mais perniciosas formas de injustiça. Poucas [pretensões] sobrevivem a uma análise rigorosa e desapaixonada (ibid., p. 287).

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